Isto seria a era do Alzheimer tecnológico?
- LEANDRO BRITO
- 18 de ago. de 2016
- 3 min de leitura

O inesperado sempre me surpreende. Esta semana, recebi duas fotografias bem antigas em um aplicativo. Uma de minha prima, e outra de minha mãe. Fiquei por um tempo admirando aquelas imagens. Dentro de instantes, fui transportado para o passado. Revivi cada um daqueles momentos em meu subconsciente. Senti uma sensação indescritível. Uma sensação reconfortante de ter a oportunidade de recordar, por meio das fotografias, instantes ultrapassados.
Estar diante de duas imagens de minha infância, fez-me lembrar das visitas familiares. Daqueles momentos caracterizados pela hora da conversa, do almoço, do chá da tarde e, sem esquecer, da hora de se sentar na sala para rever os álbuns de fotografia. Ali, no tapete da sala, todos juntos, revisitávamos o passado. Ficávamos horas revendo as festa, as viagens e, lógica, fazendo comentários sobre as roupas ultrapassadas, os cabelos fora de moda e rememorando cada situação.
Lembrei-me também das máquinas analógicas, dos filmes de 24 ou 36 poses, das revelações. Lembrei-me de como as imagens tinham valor. Geralmente, comprávamos um único filme e só tirávamos aquelas fotos que realmente tinham importância. Pensávamos duas vezes antes de acionar o botão da máquina. Escolhíamos, com carinho, cada instante que iríamos congelar em uma imagem. O resultado só tínhamos depois de dias. Após esperarmos, ansiosamente, pela revelação. O álbum era a alegria de todo a família, que não se cansava de reviver a memória.
Depois de alguns instantes de divagações, dei-me conta da contemporaneidade. Percebi a desvalorização dada à memória. A perda do encanto e da simbologia que existia intrínseca nas fotografias. Na era digital, praticamente inexiste o limite do número de imagens. Hoje, as pessoas tiram foto a todo o momento. Se antes tirávamos 24 ou 36 fotografias, hoje tiramos dezenas, centenas e até milhares. Não precisamos escolher os momentos. Não precisamos esperar a revelação. Temos tudo na tela, e provavelmente, ali elas permanecerão.
Quando estou em casa, frequentemente, sou solicitado para descarregar algumas fotografias no computador. Já sou incapaz de contar o número de fotos existentes na máquina. São milhares. Diante disso, percebo que as imagens perderam o valor; e, com isso, abdicamos também da rememoração. Por mais que quiséssemos, jamais seríamos capazes de rever todas as imagens, todos os momentos que retratamos. Enfim, tenho a impressão de que a memória se dissolve na contemporaneidade.
Vocês devem estar pensando: "mas as pessoas ainda fazem álbum de formatura, de casamento, de batizado e as famosas imagens mensais dos filhos pequenos". Concordo, fazem. Isso é fato. Entretanto, essas coleções de fotografia, infelizmente, ficam acumulando poeira no armário. Para ser sincero, eu seria capaz de lembrar quantas vezes e quantas pessoas viram o meu álbum de formatura do ensino médio. Hoje, ele está lá, no guarda-roupa: fadado ao esquecimento.
Fiquei pensando: qual será o destino das nossas memórias? Daqui para frente seremos seres sem história? Sem passado? Sem memórias? Estaríamos sendo atingidos pelo "Alzheimer tecnológico"? O que consigo pensar é que nosso passado, nossas memórias ficarão confinadas em uma máquina ou em uma rede social que, quando extinta, destruirá todas as nossas memórias; assim, como aconteceu, há alguns anos, com o Orkut.
Para mim, que trabalho com memória, é muito triste pensar no fim que estamos dando as nossas memórias pessoais. Assim, restam as perguntas: o que podemos fazer para salvar as nossas memórias? De que forma podemos resgatar o encanto pela recordação? Bem, ainda não tenho as respostas, porém almejo um dia encontrá-las.