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Um estranhamento diante da censura e do sensacionalismo


A minha reflexão de hoje está basicamente relacionada a duas questões que me chamaram a atenção esta semana. Meu primeiro questionamento veio à tona diante da produção sensacionalista, que acompanhamos em torno da queda do avião com jornalistas, delegações e os jogadores chapecoenses. Além disso, senti certo desconforto ao descobrir um caso de censura, protagonizado pelo programa Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman, denunciado pela própria censurada.


Sobre o primeiro caso, creio que não preciso trazer muitos detalhes. Como acompanhamos, o assunto teve uma repercussão extremas e gerou uma comoção muito intensa. Eu entendo toda a comoção por trás do caso. É difícil encarar a realidade de um avião que caiu e mata mais de 70 pessoas. Entendo que é um fato que choca. Sinto-me comovido também, afinal sou um ser humano, por isso me solidarizo com a família das vítimas e me emociono. O que não consigo entender é o porquê de tanto sensacionalismo e saturação em torno do fato.


Você já parou para pensar quantas pessoas são assassinadas nas periferias por dia? Garanto que se fosse feito um levantamento o resultado seria superior a 70 pessoas. Aí deixo outra pergunta: quando você viu ou ouviu todo um conglomerado midiático se debruçar tão enfaticamente as causas das vítimas da periferia, muitas delas negras? Esta semana aconteceu a primeiro votação no Senado sobre a PEC 55. Pessoas foram covardemente violentadas por uma polícia truculenta em uma manifestação pacífica, em Brasília. Quantos órgãos midiáticos abordaram essa temática? Eu, por exemplo, só vi isso nos jornais alternativos.


Eu fico um pouco incomodado com essa desproporção. Entretanto, não sou inocente, sei que existe toda uma intencionalidade atrás dessas estratégias. Falar de um avião que caiu com jornalistas e jogadores, é aceitável, seguro. Não suscita um posicionamento crítico da sociedade, pelo contrário gera comoção e, sejamos realista, por mexer com os sentimentos, vende, eleva o índice de Ibope. Agora falar de centenas de jovens, muitos deles negros que morrem diariamente na periferia, aí o não dá, pois isso tem um preço: pode gerar transtornos para uma ordem social já estabelecida. Ordem essa que, muitas vezes, legitima e reforça a discriminação, o preconceito e as violências simbólicas que sofremos todos os dias.


Note: eu não estou dizendo que foi um erro falar sobre o fato, mas o que me incomoda é o excesso, a apelação e a exacerbação em torno da questão da morte, que querendo ou não acontece a todo o momento. E é sempre assim. Outro caso emblemático que lembro foi em 11 de setembro de 2001, o choque de um avião as Torres Gêmeas, nos Estados Unidos. Na época, o Jornal Nacional mudou toda a programação do dia que foi reconstruída com base no atentado. Reitero: por que tanto excesso? Os Estados Unidos já organizaram ataques parecidos matando várias pessoas, como na Guerra do Vietnam, e outras que já iniciaram. Quantos sabem disso? Ou melhor, quantos meios já falaram sobre isso?


O segundo caso, envolveu uma mulher que recebeu o convite da equipe do programa Altas Horas para falar da violência contra a mulher (clique aqui, para mais informações). A entrevistada havia passado por alguns tipos de violência. Ela foi ao programa, relatou sua história, que gerou uma comoção muito grande tanto nos convidados como na plateia. No fim, a entrevista simplesmente foi eliminada do programa. De acordo com relato da entrevistada, o motivo da censura seria a preservação da integridade dela e de sua família. Eu pergunto: será esse o motivo, mesmo? Eu diria que provavelmente naquele depoimento continham coisas que ainda se procura esconder, ignorar, ou seja, fazer de conta que não existe.


Esta semana, diante de tudo isso, tive também a experiência de participar de uma palestra que tratava da questão de gênero e uma garota que estava participando, relatou que havia sido molestada pelo próprio tio na infância. Como ela mesma disse, demorou anos para que ela conseguisse falar sobre o assunto. Isso trouxe um transtorno imensa à sua vida. E vai ter de aprender a viver com essa dor pelo resto da vida. Eu vi na fala dela o quanto é difícil, porém necessário relatar uma experiência de violência. Aí volto para o caso do Altas Horas. Fiquei imaginando: quando tempo essa mulher precisou para falar sobre a violência que sofreu. E quando ela decide falar, é simplesmente censurada. Quantas mulheres violentadas foram censurada nessa ação? Inúmeras. Consegue ver o impacto disso?


Gostaria de aprofundar mais no assunto, mas já estou enrolando demais. Para finalizar deixo alguns questões para refletir. Quais são as intenções por detrás das censuras, das omissões e, por que não, do sensacionalismo? E por que alguns assuntos merecem importâncias e outros não? Eu tenho as minhas convicções, mas gostaria de saber um pouco o que vocês leitores pensam também.


Sou jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atualmento, faço mestrado de Comunicação na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp).

Sobre mim

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Trecho de livro

Tudo muda, penso. Esta é a única constante. Todos crescemos (trecho de O último adeus)

© 2016 por Leandro Brito. Orgulhosamente criado com Wix.com

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